Saboun

As aventuras de Sabão do reino de Corona

As aventuras de Sabão
no reino de Corona

Isabel Fiadeiro. Mauritânia.

Isabel Fiadeiro





 
As Aventuras de Saboun e do seu amigo Mak Grech, uma chaleira sempre com um chuveiro de água em erupção no pipo, chegam-nos da próxima e desconhecida Mauritânia, pelas mãos de uma portuguesa residente em Nouakchott, a Capital desta República Islâmica e de onde também nos chegam semanalmente 4 a 5 camiões frigoríficos carregados de peixe, ao Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL).

Isabel Fiadeiro, 57 anos, natural da Praia da Rocha, instalou-se na Capital da Mauritânia há 16 anos, onde é proprietária da Galeria de Arte Zeinart Concept, que nos últimos 10 anos se tornou um dos epicentros da vida cultural do País e região, promovendo exposições e dando formação a artistas locais e estrangeiros.

Isabel é também membro da Teranim para as Artes Populares, uma associação de voluntários que trabalha para a promoção da Cultura Popular dos Antigos Escravos. É igualmente Comissária de exposições para o Instituto Francês da Mauritânia, organizando duas a três exposições ou actividades por ano.

Por outro lado, no campo da criação e do apoio às iniciativas locais, que deste lado poderemos ver como o considerado “Fora da Caixa”, o Espaço Zeinart também é aproveitado/utilizado para a realização do Mercado no Jardim, ondes são vendidos os produtos locais desde verduras, fruta da época, pão, doces, doçaria, mel, comida take-away, na qual cada vendedor/produto tem a sua banquinha individual. Há também a presença de uma cooperativa feminina que vende sacos e roupas feitos a partir de telas locais e uma mesa de artesanato, animada pela Srª Tfeila, cuja loja em Nouakchott mais parece a Gruta do Ali Baba e onde se pode encontrar o melhor e o pior do artesanato local. Tudo iniciativas que dão à elite urbana de Nouakchott um destino praticamente semanal, onde artistas, diplomatas, polícias e “ladrões” confraternizam no ambiente cultural proporcionado por Isabel e o marido Hermann B. também ele escultor e alquimista da madeira.

 

Entrevista

Por Raul M. Braga Pires

Raul M. Braga Pires

Isabel Fiadeiro é também uma Urban Sketcher, é isso que lhe dá mais gozo fazer? Foi esse o inicio da sua caminhada até chegar a este patamar de agente promotora das artes na Mauritânia?

Isabel Fiadeiro

Comecei a desenhar quando vim para a Mauritânia, a desenhar a partir da observação em cadernos e em 2007 ou 2008 juntei-me aos Urban Sketchers que não conhecia antes, o que ainda me proporcionou mais a desenhar. Entretanto vivia da minha pintura, mal ou bem e então é assim que eu começo a trabalhar com uma Galeria que já existia aqui e ainda existe, que é a Galeria Sina, trabalhei dois anos e meio como associada e em 2012 decido abrir a minha própria Galeria e foi assim que começou. Nunca na minha vida tinha pensado ter uma Galeria, trabalhar directamente com artistas e artesãos, aliás a minha Galeria não expõe o meu trabalho, expõe o trabalho de artistas mauritanianos ou artistas da região, sejam do senegal ou do Mali e também artistas estrangeiros que vivam aqui ou que queiram expor e que o trabalho deles tenha a ver um bocado com a região. E pronto e assim foi que de ser pintora e de desenhar, passei a promover o trabalho dos artistas locais e não só.

Raul M. Braga Pires

As Aventuras do Saboun já foram objecto do interesse da Imprensa mauritaniana. Como surgiu esta ideia? E a divulgação local como aconteceu e que feedback tem tido por parte dos seguidores/população?

Isabel Fiadeiro

Dia 14 de Março foi anunciado o primeiro caso de Corona aqui na Mauritânia e como o Hermann, o meu marido tem uma doença crónica, tem a Doença de Lyme, que vem da carraça, achámos por bem de imediato cancelar o Mercado que fazemos no jardim e fechar a Galeria por precaução e então de um dia para o outro o Governo também tomou medidas muito rápidas, com poucos casos, foram céleres a fechar as fronteiras, de decretarem o Recolher Obrigatório das 18h às 06h do dia seguinte. O fecho de muitos negócios foi um pouco mais tarde, mas podemos dizer que nós fechamos uma semana mais cedo. De repente de uma vida com muita passagem na Galeria e não só, eu sou membro do Teranim que é uma Associação de Apoio à Arte Popular e também há alguns anos sou Comissária de exposições do Instituto Francês. De repente tudo é anulado, os concertos foram adiados para data indefinida e, de repente, estou em casa com montes de tempo (sem saber o que fazer) não é bem isso, todos nós tivemos que nos adaptar a este tempo de confinamento e comecei a desenhar muito mais. Tudo o que não tinha tempo para fazer, voltei a essas tarefas. Neste momento voltei ao atelier de pintura também que é muito interessante também e, em determinado momento, começo a ver que não há suficiente comunicação sobre as medidas que se devem tomar na luta contra o vírus e que as pessoas estão a utilizar muita lixivia e começo-me a informar um bocado na internet e surgiu a ideia do Saboun, que é o sabão amarelo, o sabão de toda a vida que ainda por cima não é poluente e começo a fazer esta série de desenhos que ia mostrando principalmente no Facebook. Estas publicações foram muito partilhadas até chegarem a um jornalista que trabalha para um Jornal Oficial da Mauritânia, o Jornal do Governo e pediu para fazer uma entrevista, o que fizemos por Whatsapp.

Raul M. Braga Pires

Voltando à sua faceta de Agente Cultural na República Islâmica da Mauritânia, que desafios e dificuldades encontrou nesta empreitada? Conte-nos algumas peripécias, que certamente aconteceram no seu processo de afirmação. A condição de Mulher dificultou ou, pelo contrário, a Mauritânia demonstrou ser efectivamente uma Sociedade Matriarcal, como vem nos livros de Antropologia?

Isabel Fiadeiro

Não sei dizer bem porque foi um processo que foi andando devagarinho, a cada passo, eu não acredito em começar as coisas a partir do tecto, foi tudo pouco a pouco que se foi desenvolvendo e que se adaptou também ao ritmo deste país. Eu trabalho com artesãos e, normalmente às terças-feiras, eles e elas vêm trazer os trabalhos que fizeram e eu pago-lhes o que eles venderam durante a semana, porque a Galeria trabalha num sistema de depósito em que os artistas depositam aqui os seus trabalhos e a Galeria fica com uma percentagem pequena, entre 20% e 30% e eles são pagos semanalmente, dependendo daquilo que venderam. Então a Galeria começou pequenina, pouco a pouco, um bocado no modelo da Galeria a que tinha estado associada. Fomos crescendo, desenvolvendo-se e foi fácil fazer os papeis relativos à burocracia, não tive grandes dificuldades em legalizar tudo. Relativamente à condição da Mulher, esta história da Sociedade Matriarcal como vem nos livros de Antropologia, tem muito mito por cima, há grandes dificuldades e grandes problemas na sociedade. Eu não penso que por ser mulher, eu mesma, não vejo que isso tenha ajudado ou dificultado este trabalho. Mas já que estamos a falar no feminino, aproveito para dizer que fruto deste momento a minha última iniciativa foi começar com uma cooperativa feminina e com um costureiro, como agora não há trabalho para ninguém, a fazer máscaras laváveis que vamos tentar distribuir, vender a um custo baixo para conseguir dar máscaras a toda a gente. As primeiras encomendas foram para duas associações, uma agrária, que participa no Jardim, para todos os trabalhadores poderem ter máscaras e a outra para a Alliance Française que vai dar aos funcionários e também temos encomendas particulares. Como ninguém estava habituado a fazer máscaras e é uma máscara complexa, com três pedaços de tecido diferentes para funcionar um bocado como um filtro e… a produção está a ser muiiiiito leeeenta! Bom, vamos ver, é uma coisa a seguir, estamos à procura de outras cooperativas, de outras associações que queiram começar a pôr-se a fazer máscaras para ver se conseguimos aumentar a produção. No Senegal estão a fazer o mesmo e inspirei-me neles, que colocaram todos os costureiros a fazer máscaras para toda a população.

Raul M. Braga Pires

Conte-nos agora, que cuidados teve que ter após a chegada da pandemia, já que o seu Espaço se trata de uma plataforma giratória de gente que corre Mundo e está sempre em movimento.

Isabel Fiadeiro

Como já tinha referido anteriormente, fechámos estamos fechados. Fomos contactados quatro ou cinco vezes, não mais, por pessoas que precisavam de comprar um presente para oferecer e estavam decididas a comprar na Galeria porque já conhecem a nossa oferta. Trabalhámos por Whatsapp, enviámos fotografias, os preços e depois as pessoas vieram buscar o presente ao jardim, porque ninguém pode entrar na casa e então é assim que temos feito. Ainda não anunciei que há essa possibilidade, mas quem quiser pode telefonar e encomendar.

Raul M. Braga Pires

E como é o confinamento numa população cuja origem e matriz genética está no Deserto, nos grandes espaços? Tem cumprido com as exigências ou utiliza algum truque desconhecido do tecnológico Ocidental?

Isabel Fiadeiro

Quando começou o confinamento as escolas fecharam e quando há férias ou como neste caso particular, as crianças são enviadas para fora da cidade e foi o caso, muitas foram para as aldeias e muita gente também fez o mesmo, principalmente quando se decidiu que iam fechar as estradas. O facto de as pessoas terem saído das cidades, somos uma população muito pequena, cerca de 4 milhões e meio talvez no país e talvez 1 milhão e meio ou menos em Nouakchot, não há uma densidade populacional como noutros países. Isso ajudou a que por enquanto não temos muitos casos, continuamos com seis ou sete casos desde há três ou quatro semanas. E as pessoas têm medo, vê-se imensa gente com máscaras ou com o lenço bem tapadinho na boca e a cumprir muitas das recomendações. Como está tudo fechado, os mercados estão fechados, os sítios onde há muitas aglomerações estão fechados, também não sei bem o que se passa, só saio de casa para fazer compras e é o que vejo.

Entrevista de:

Politólogo/Arabista

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Referências
Externas

Conheça as nossas fontes.
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Al Malouma

Sitio de informação e actualidade da Mauritânia.

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Le Reflet

Sitio de informação e actualidade da Mauritânia.