11 de Setembro

Dezoito anos depois

11 DE SETEMBRO

Dezoito anos depois. O que há de novo?


Há 18 anos, ainda as Torres não tinham desabado, a Comunidade Académica fazia jornalistas e "comentadeiros" brilharem nos diferentes media, na tentativa da explicação racional que os americanos procuravam em choque e pavor. Não havia dúvidas, aí estava o Choque de Civilizações anunciado por Samuel Huntington em 1993. Aí estava o “Arco Islâmico”, da Mauritânia à Indonésia a começar a flectir o músculo e a fazer frente ao Mundo Ocidental. Numa imagem, a bola (de ténis) colonial que após ter batido na parede, volta para trás para explodir na cara do ex-colonizador! 

Durante uns tempos, o debate centrou-se sobre as razões da guerr
a, em termos amplos e marcadamente históricos para, uma vez mais, tentar encontrar resposta para o inexplicável. Este debate não foi conclusivo, e os contestatários da Tese de Huntington, mostraram-se mais que muitos, os quais concluíram que o motor da guerra são sempre e, sobretudo, questões/ambições económicas. Voltando à Tese de Huntington, existe à volta desta um folclore, que ao assim parecer, poderá até servir de espécie de filtro ou ruido para distrair as massas. Ou seja, a construção do mito tem como ponto de partida a Queda do Muro (1989) e a desintegração da URSS (1991), o que obrigou à Diplomacia e à Intelligentsia americana fazerem um zoom-out, tal era o foco que tinham em Moscovo e respectivos satélites.

A ameaça já não estava concentrada num só inimigo, nem num só sitio, porque o Mundo deixara de ser bipolar e é aqui que começa a especulação, pois fala-se de uma encomenda que o Departamento de Estado Americano terá feito a Huntington, para este realinhar os astros no sentido de o Mundo ficar de nova a preto e branco. Daí também a primeira publicação ter a forma de artigo científico, na Foreign Affairs, em 1993, para em 1996 ganhar o formato de livro e um título mais completo, “Choque de Civilizações e a Reconstrução da Ordem Mundial”. 

A encomenda estava feita, o artigo teria sido um primeiro ensaio, que permite ao livro entrar nos programas das universidades e os americanos começarem a serem educados para diabolizarem os muçulmanos. Esta é a narrativa que desceu dos palácios à rua árabe e à rua magrebina e que justificaria uma segunda invasão do Iraque (2003). Não há dúvidas, nestas ruas, a culpa é dos americanos e a Ummah, a Nação Islâmica, apenas está a responder à provocação e a marcar pontos como nunca tinha ousado. Desta forma, fica cicatrizado nas Mentes Muçulmanas uma afronta civilizacional à sua existência, às suas tradições, enquanto percebem que o Ocidente, liderado pela “Cabeça-da-Serpente”, como Saddam tinha caracterizado a América aquando da primeira invasão (1990), invadia de novo o Iraque por mera razão económica, já que tinha que assegurar os fluxos de petróleo e a navegabilidade no Golfo Pérsico, que o faz chegar até ao “Mundo Branco e Industrial”.

 

O que aconteceu nos últimos 18 anos?

Da democracia avançada ao estado policial


Após a queda das Torres e do buraco cirúrgico que um dos aviões fez na parede exterior do Pentagono, o discurso do Presidente Bush Filho, foi ao encontro dos cartazes apresentados nos westerns dizendo, “ou estão connosco ou estão contra nós” e a cabeça de Ossama Bin Laden (vulgo OBL, para poder ser mencionado em qualquer conversa pública sem provocar o pânico no vizinho do lado) passou a valer 20 milhões de dólares “Dead or Alive”!

Segue-se uma vez mais o espanto da Comunidade Académica que percebeu que a mais avançada Democracia do Mundo Ocidental, o “Farol do Mundo Livre”, em poucas horas se pode transformar num Estado Policial, com a perda de liberdades dadas como adquiridas e inalienáveis em prol do “Greater Good”.

Invade-se o Iraque com base em relatórios beefed-up (hiperbólicos, nos quais se escrevera o que o decisor político queria ler), bem como em testemunhos dos iraquianos no exílio, que também disseram o que a Administração Bush queria ouvir, já que seriam recebidos como salvadores e libertadores do Povo, o “American Dream” na Mesopotâmia seca em água e fértil em crude! Depois fingiu-se andar à procura do arsenal de armas químicas e biológicas já desmantelado na primeira invasão. Foi o vale tudo que a Ummah jamais perdoará à América nos próximos Mil anos.

A caça ao Carniceiro Zarqawi, aos filhos de Saddam e o desmantelamento do Partido-Estado Baath e consequente desmantelamento das estruturas militares, policiais e de Intelligentsia iraquianas, marca o início da criação do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, o patamar seguinte do confronto, este já com uma entidade ideológica que agora apresentava também um território, uma sede, um número de telefone, um Código Postal. Caiu-se aliás, no logro, de se aventar a hipótese de se usar a Al-Qaeda contra o Estado Islâmico e da primeira passar a ser um Aliado do Ocidente na luta contra o terrorismo!

Entretanto e pouco depois, em África, acontecia a “Primavera Árabe” (2011) e os políticos europeus passaram a achar bem, nas declarações à imprensa, o derrube do Poder de importantes aliados norte-africanos como Ben-Ali (Tunísia), Moubarak (Egipto) e Kaddafi (Líbia). A morte deste último provocou uma autentica revolução no desconhecido, profundo e poroso Sahel (Mali, Níger, Chade, Burkina Faso e partes de outros países até ao Mar Vermelho), permitindo a criação/consolidação de uma nova federação terrorista a Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), a qual para marcar terreno passa a erguer a bandeira de que o grupo fundado por Bin Laden e Ayman al-Zawahiri não estava a ser ultrapassado pelo grupo de Califa Baghdadi. Estavam “vivos e davam pontapés”, no Mali desceram até uma cidade de nome Konna e François Hollande não hesitou e deu luz verde à Operação Serval (2013), já que esta Federação Terrorista Regional ameaçava atravessar o Rio Níger para a margem Sul e tomar Bamako, a Capital. O Boko Haram, no norte da Nigéria, alinhava num modelo de luta, que marca o advento do novo modelo de luta, que se tem afirmado cada vez mais, raptos e queima de católicos enquanto assistiam à Missa dominical.

É precisamente este ponto, que me parece de viragem e que marca indelevelmente o momento actual, o do Choque de Civilizações já mencionado. Ou seja, estes 18 anos não foram de Choque Civilizacional, mas sim um período intermédio, de adaptação ao modelo de resposta optado pelo Ocidente na Luta contra o Terrorismo.

Os Serviços de Informações têm feito o seu papel no combate ao acesso a explosivos e a detonadores. Esta parte parece que venceram, mas falharam, porque seria impossível não falhar, nas vagas de refugiados a caminho da Europa em todas as frentes, bem como no acesso a armas ligeiras e de guerra. Como resultado, os massacres em Igrejas em África, Médio Oriente e Europa, nunca teve tanto chão para andar. Talvez esta fronteira do Choque de Civilizações, possa ser marcada com o massacre de 77 jovens na europeia e rica Noruega (2011), pelo branco loiro de olhos azuis Anders Breivik, cuja acção nada gratuita (a extrema-direita europeia também está viva e pronta a actuar), foi de imediato pela media atribuído gratuitamente a um qualquer jihadista tresmalhado das atentas autoridades europeias.

O momento actual, que contempla a derrota da existência territorial do Estado Islâmico, vale a pena contabilizar estatisticamente, ou apenas através de um “voo de flamingo”, a quantidade de Igrejas profanadas e incendiadas em França e o silêncio à volta destas, sem reivindicações. E se o incêndio em Notre-Dame não tiver sido um acidente? Os factos dizem que não havia trabalhadores no local! Quem terá sido o negligente? A propagação do fogo foi vertiginosa, levando a pensar que estaria tudo armadilhado para tal. Outros dois dados interessantes são, o timing deste incêndio (precisamente um
mês após o “Breivik australiano” ter massacrado 51 muçulmanos em pleno culto de sexta-feira na Nova-Zelândia) e, qual é a pressa do Presidente francês em ter em 5 anos a Igreja reconstruída e reabilitada? Acrescentar também que as autoridades da União Europeia, sobretudo as polícias, estão proibidas de revelar a origem dos perpetradores de atentados e violações, caso sejam muçulmanos.

Não se deixe enganar, o Choque de Civilizações esteve a larvar durante 18 anos e agora aí está, silencioso e secreto, ardiloso e mais perigoso que nunca! 

Agualva-Cacém,
11 de Setembro de 2019
Raúl M. Braga Pires
Politólogo/Arabista